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23.05.2008
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Primeiras questões acerca do livro 25 mulheres que estão fazendo a nova literatura, organizado por Luiz Ruffato e publicado em 2003 pela Record: por que fazer uma antologia de contos fundamentada num critério de gênero? Por que não "25 homens que estão fazendo a nova literatura"? Haveria uma especificidade, um jeito feminino, uma "literatura de mulheres"? Outra importante pergunta é saber se os objetivos foram cumpridos. Se o objetivo foi elaborar um painel de Quem escreve, Como e Sobre o quê, sim, o livro é bem-sucedido. Se um outro objetivo foi publicar uma antologia com bons contos, que tenham relevância estética, que tenham o que dizer e possam fazer diferença no panorama literário, a resposta é: fracasso.
Se, no fim das contas, o que lemos é de baixa fatura, qual seria o propósito do "novo"? Se a qualidade literária, nestas antologias de contos que se propõem a nos mostrar os novos valores, não for levada em consideração, o que levará os leitores a fecharem suas Clarices, Machados e Cecílias para ler estes novíssimos? Claro, toda antologia é muito mais apresentação do que consagração: sua heterogeneidade é sempre seu risco, talvez sua própria natureza. Mas diante da fraca fatura de Boa Companhia e deste livro, é possível pensar que o rigor deveria ter sido maior.
A justificativa para uma antologia de contos de mulheres reside, segundo o prefácio do organizador, na posição marginal que elas ainda ocupam. De fato, apesar das importantes conquistas das últimas décadas, ainda há muitos espaços e direitos a se consolidarem. Uma antologia de gênero, penso, sempre será muito mais um projeto político, em primeiro lugar, do que uma especificidade literária. Existem experiências do feminino, posições sociais específicas da mulher durante toda a história, mas certamente não é possível falarmos de uma Voz Feminina, como se todas tivessem uma essência que as definisse e à sua arte.
Uma primeira característica de 25 Mulheres é que os textos procuram escapar do estereótipo do que seria uma literatura de "mulheres". Os temas são variados, as técnicas também. Em alguns contos, os narradores são, inclusive, homens. Pode existir um engajamento "feminista" (as aspas não têm nada a ver com o pejorativo, mas com a inadequação do termo, que uso por falta de algum melhor), como no fraco conto Minha Flor, de Lívia Garcia-Roza, que denuncia o Macho Opressor, ou no bem-humorado, porém decepcionante, Mãe, o cacete, da boa escritora Ivana Arruda Leite (que se perde num final mal-elaborado, mas se preocupa em subverter aquela imagem conciliadora da maternidade, ideologia tão patriarcal). A sensibilidade gay também aparece no prolixo Madrugada, de Heloisa Seixas, que trata de um amor insano, levado aos limites, cruzando este tema com a tradição gótica do vampirismo. A maior parte dos textos são urbanos, mas há espaço para o fraco conto de Letícia Wierzchowski, que se passa numa atmosfera hippie-praia-marijuana (o que poderia ser bem bacana), com toques de maravilhoso, mas que se perde em frases feitas do tipo "Talvez sim, se Deus não mudar de idéia. Deus é imprevisível feito as mulheres. Talvez por isso, seja sábio" (a vírgula desta última frase é problemática?).
Muito se fala da grande sombra que Clarice Lispector coloca sobre as escritoras brasileiras. Nos 25 contos, se Clarice por acaso estiver presente, isto acontece nas entrelinhas. Um texto que mais se assemelha aos trabalhos de Clarice talvez seja o bom Um oco e um vazio de Cíntia Moscovich.
É interessante percebermos que o valor da representação imediata do cotidiano, presente na antologia Boa Companhia, lida num post anterior, mantém-se com força. Continuamos herdeiros do pragmatismo que via na literatura um instrumento de construção e explicação da realidade nacional? Isto nos impediu, em diversos momentos, de alçar vôos imaginativos mais altos? Em parte, penso que este paradigma ainda tem sua força e nesta literatura pós-90 se encontra atualizado. Os contos de Clarah Averbuck e Simone Campos (ambas muito presas a uma linguagem blog e a uma vivência shopping center-pop-classe média), Tatiana Salem Levy, Ana Paula Maia, Cecília Costa, Livia Garcia-Roza, Allex Leilla, Tércia Montenegro, Nilza Rezende e Claudia Tajes não conseguem escapar das fotografias banais. Já os bonitos contos de Adriana Lisboa (autora do delicado Um beijo de Colombina) e Claudia Laje partem de recortes cotidianos e transfiguram esses referentes na linguagem, causando aquela tensão entre representação e experiência (estamos aqui com João Alexandre Barbosa) que dá nascimento a um grande texto literário. Outro conto que se destaca, apostando no estranhamento e no insólito, é o de Rosa Amanda Strausz.
Bem, fica para um post próximo mais algumas considerações sobre alguns aspectos destes contos, pois este aqui se prolonga. Falarei também da orelha que a professora Dalcastagnè escreveu para o livro. Até mais.
(Cristhiano Aguiar)
Palavra(s)-chave:
crispim literatura feminina ficção contemporânea Luiz Ruffato
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Cristhiano Aguiar
disse em 23.05.2008 às 16:49
Eita, polêmicas!
Priscila: muito obrigado pela leitura! A ênfase nos "fracassos" vem mesmo da tentativa de discutir valores e escolhas estéticas das quais discordo. Mas a discussão sobre estes contos ainda vai render outro post. Bjs!
Bruno Rafael: Obrigado pela leitura. Lembrando que o post ainda vai ser desdobrado em outros e num ensaio que preparo sobre o tema das antologias de contos contemporâneos. Suas críticas foram anotadas, rapaz! Abraços.
Priscila Varjal
disse em 23.05.2008 às 12:41
Oi Cristhiano!
Agora fiquei com medo de escrever algum texto e pedir sua crítica!
Brincadeira, tô precisando mesmo ser corajosa. Achei sua discussão muito pertinente, inclusive no que diz respeito àquilo que se transforma em estereótipo e acaba falhando.
Houve uma preocupação maior em falar dos contos fracassados, na tal Antologia, que nos que estão bons, não foi? Isso se deu por causa do título? É mesmo muita responsabilidade entrar numa antologia que promete tanto logo na capa! Um perigo..
Mas concordo com sua crítica, qualquer rótulo que se coloque num texto que se propõe literário deve ser examinado, e se o erro não estiver no texto, certamente estará em quem colocou o rótulo, não é mesmo?
um abraço,
Priscila
Bruno Rafael de Albuquerque Gaudêncio
disse em 23.05.2008 às 12:23
brgaudencio.wordpress.com
Bem, achei seu texto um pouco mal escrito, apresado em tecer comentários não muito elogiosos. Para mim seus argumentos não pareceram sustentáveis, por serem demasiadamente pessoais. Gosto muito dos seus contos, vejo você com um potencial muito grande para a ficção, todavia seus ensaios críticos não são lá muito bons, faltam critérios mais "científicos" e "estéticos". Falo isso, não por ser um grande ensaísta e contista, por que não sou, mas por perceber certas lacunas em seus escritos críticos, por sentir uma ausência de melhores critérios e referencias. Um abraço daquele que acompanha mesmo a distancia sua produção.
Bruno Gaudencio