-
23.11.2009
Alterar tamanho da letra
O Colóquio Cecília Meireles, que acontece anualmente por iniciativa do poeta e professor Esman Dias, tem sua abertura prevista para logo mais à noite, às 19h, na sede da Academia Pernambucana de Letras (Av. Rui Barbosa, 1596). Logo em seguida à solenidade de abertura, será exibido o filme Geração 65: aquela coisa toda, de Luci Alcântara.
Somente amanhã, a partir da 9h, terão início as palestras e debates, cujos temas, vale dizer, não se limitam à obra da poeta que dá nome ao evento: são os mais variados, bastando-lhes a relação com a poesia, com a literatura, com a crítica. As conversas seguem até sexta, e acontecem este ano no Auditório Barbosa Lima Sobrinho, no térreo do Centro de Filosofia e Ciências Humanas – CFCH, da UFPE.
Quanto à programação dessa nona edição do evento, esperamos disponibilizá-la tão antes quanto possível. Uma certeza é a presença, já tradicional, de algumas das pessoas que melhor representam o que venha ser a poesia aqui produzida — bem como a pesquisa, a crítica, a tradução e a ficção —, e a presença de estudantes de graduação e de pós-graduação que, embora não tão públicos, já vêm florescendo na área com trabalhos relevantes.
Até lá,
Artur A. de Ataíde
Palavra(s)-chave:
seminário poesia literatura tradução ficção debate Esman Dias Cecília Meireles Geração 65
-
09.11.2009
Alterar tamanho da letra
Hoje pela manhã, no auditório térreo do CFCH, na UFPE, teve início um evento cujo potencial de interesse, sobretudo frente aos recifenses, é difícil de delimitar. Falaram hoje um historiador e um cientista político; amanhã, pela manhã, falam uma especialista em engenharia ambiental, uma arquiteta, um escritor e uma linguista. E a semana segue: arquitetos, gestores públicos, artistas plásticos e pesquisadores de campos variados, que vão da medicina fitoterápica às culturas urbanas contemporâneas. O que isso tudo tem a ver com o Recife: é em função da complexidade intrínseca à identidade cultural da cidade — aliás, de duas cidades — que essa multiplicidade de saberes foi mobilizada. Trata-se do Simpósio Internacional Recife-Luanda: perspectivas para cooperação trilateral Brasil-África-Alemanha, organizado pelo CCBA – Centro Cultural Brasil-Alemanha, e pela UFPE.
No que diz respeito, mais diretamente, à literatura: o escritor presente na programação, que fala amanhã, é o angolano José Eduardo Agualusa, que tem publicados, entre outras coisas, três volumes de contos e oito romances, facilmente encontráveis em nossas livrarias. No site do CCBA há mais informações sobre o escritor, além da programação completa do evento: www.ccba.org.br.
Quanto à questão das relações entre as duas cidades, em lugar de respostas, vão aqui duas perguntas: 1. Qual a razão de ouvirmos, talvez semanalmente, maracatus percorrerem as ruas do Recife Antigo chamando por Luanda? 2. Até que ponto a literatura de Agualusa (que, aliás, já morou em Olinda) nos é, de fato, estrangeira?
("Luanda, Luanda, onde estás?", "Luanda, Luanda, onde estou?", pergunta Ascenso).
Abaixo, segue uma resenha do romance As mulheres do meu pai, publicado por Agualusa em 2007.
Abraços e até lá.
(Artur A. de Ataíde)
.....................................
José Eduardo Agualusa no Simpósio Internacional Recife-Luanda: perspectivas para a cooperação trilateral Brasil-África-Alemanha
A presença do escritor José Eduardo Agualusa no Recife, por ocasião do Simpósio Internacional Recife-Luanda, não se justifica meramente por sua origem (o autor, de fato, nasceu em Angola, na cidade de Huambo). Tratar com maior detalhe a questão — o que fazemos a seguir — talvez compreenda a melhor das introduções não apenas à sua obra, mas também ao que vamos encontrar de 9 a 13 de novembro no auditório do CFCH, na UFPE.
As mulheres do meu pai
No romance As mulheres do meu pai, publicado por Agualusa em 2007, vemos o desenrolar simultâneo de duas histórias entrelaçadas. Uma delas é o diário de um escritor que, ao lado de uma documentarista e de um fotógrafo, empreende uma longa viagem de Angola a Moçambique, a fim de colher material para um filme sobre a música africana e sobre a situação das mulheres no sul da África. A viagem foi de fato realizada por Agualusa: ao lado da documentarista inglesa Karen Boswall, radicada em Moçambique, e do fotógrafo catalão Jordi Burch. A segunda história compreende a saga de uma documentarista portuguesa, Laurentina, no encalço de um homem recém-falecido, o músico jazzista Faustino Manso, de Angola, que, além de tocar contrabaixo como poucos, conta em sua biografia com uma circunstância peculiar: a de haver constituído família com sete mulheres diferentes, distribuídas ao longo da costa africana — de Angola a Moçambique —, deixando-lhes, ao todo, dezoito filhos, além de alguma saudade. Laurentina descobrira há pouco ter sido Faustino o seu verdadeiro pai, de modo que sua viagem pela África é também uma busca por si mesma, por suas origens.
Esses, que seriam os dois núcleos do romance, vale dizer, deixam-se enriquecer ainda por uma série de ingredientes adicionais, que não poderiam passar sem referência. Enquanto segue a leitura, por exemplo, somos frequentemente surpreendidos com a conversão flagrante, desinibida, de experiências "reais" da viagem de Agualusa em elementos-chave da viagem "ficcional" de Laurentina, gerando uma espécie prazerosa de déjà vu narrativo. Há ainda o registro impressivo de lugares e paisagens as mais díspares, desde o centro vivamente caótico de Luanda ao abandono incandescente de Wlotzkas Baken, incluído com o intuito de, quem sabe, suprir o desejo do narrador por "guias de viagem que fossem, simplesmente, colectâneas de poesia"; há as discussões sobre civilização, comunismo, mestiçagem, racismo e apartheid; há a coleção de fragmentos de entrevista, textos de catálogo ou simples comentários acerca de músicos, fotógrafos e poetas, sejam eles angolanos, moçambicanos ou sul-africanos, que se entremeia à narrativa — sua presença é o indício de que Agualusa terá dado ouvidos ao que diz Seretha du Toit à "construtora de memórias" Laurentina: "não é possível construir um país sem investir na memória"; e há, finalmente, o gosto indisfarçável pelo puro contar histórias, pelo enredar de tramas que vão dos crimes de guerra ao desencontro amoroso, envolvendo personagens as mais heterogêneas e imprevistas.
Diante de todo esse emaranhado, no entanto, é apenas um pormenor especial o que nos interessa agora. Pormenor típico de um fabulista: aquele que pensa e faz pensar por meio de histórias. É aí que voltamos a nosso ponto inicial.
O caso é que, antes mesmo de vermos Laurentina ser recebida alegremente, como uma parenta distante, mas já esperada, no funeral de Faustino, a acontecer na casa de Anacleta — primeira mulher do músico e última parada sua, depois de seu périplo africano; antes mesmo de a vermos se reconhecer entre seus novos irmãos e sobrinhos, que tinham já uma vaga notícia dessa outra filha Laurentina, Agualusa já nos acena com uma perspectiva intrigante: a hipótese de o músico Faustino Manso ter sido estéril.
O pormenor, salvo engano, traz implicações maiores que a mera complicação novelesca. Os laços que tão afetuosamente ligam Laurentina à família Manso, e que fazem desta uma família, longe de serem laços de sangue, podem não passar de laços, digamos, ficcionais: sete mulheres e dezoito filhos ligados pelos poderes do conto, pelos poderes de uma memória que mistura fato e fábula. A esterilidade biológica de Faustino, desse modo, não é nada ante a fecundidade simbólica de sua figura: o novelo de invenções — a própria família Manso — que fez Laurentina correr a África, a esta altura, já é parte inalienável de sua experiência de vida, já a constitui. É semelhante ao que acontece à estranha coleção de insetos de Mauro, um italiano que mantém uma pousada na Ilha de Moçambique. Mauro tem por hobby instalar mecanismos em besouros mortos, que voltam a bater asas como seres híbridos, mistos de natureza originária e invenção incorporada.
Com o pormenor, enfim, o ciclo se completa: assim como vimos o real alimentar a ficção, vemos agora a ficção fundar o real.
"O teu pai é uma invenção", diz Bartolomeu a Laurentina: se a frase não se aplica apenas à personagem e a seu destino particular, mas também pode nos servir de parâmetro em qualquer discussão sobre origem e identidade, o que ela nos diz é que há algo muito mais importante a esse respeito do que nossa árvore genealógica. Esse algo é aquilo que inventamos quando estamos juntos: cultura. Uma identidade não se compõe de meros atavismos estanques, mas de um movimento incessante, sempre vivo, de recriação. Com essa visão de identidade cultural, típica de "nações crioulas", é que as perspectivas de cooperação do Simpósio ganham sentido pleno: é de culturas que se reconhecem em pleno trânsito que estamos falando, e de diálogos que semeiem possibilidades reais de movimentação.
O caos efervescente da Luanda de Agualusa, a confusão de línguas e culturas da Berlin atual e a abertura do Recife para o oceano: essas são as três imagens inspiradoras, móveis, que esperamos ver em diálogo no Simpósio; três identidades divididas, como a de Laurentina, entre a origem e a invenção.
Portas de entrada
Toda cidade excede, em muito, o seu território, a sua geografia, a matéria aparentemente intransitiva dos seus edifícios, do semáforo, das calçadas em ruína. Na mudez desses objetos, esconde-se uma espécie de coro: acompanhando-o em harmonia inconsciente, raras vezes nos damos conta dele, mas um arquiteto historiador, por exemplo, ou simplesmente um estrangeiro, irá lhe distinguir não só as vozes e modulações sutis, mas também o complexo sinfônico de que é parte, junto ao nosso modo de caminhar, de gerir a coisa pública ou de tratar o outro num ônibus. A cidade, visível e invisível, vai da vegetação típica aos desejos e traumas de quem nela vive, vai do revestimento dos edifícios ao ritmo dos gestos numa praça de subúrbio: vai de uma ponta à outra, enfim, do espectro confuso de que se faz uma cultura. Aí, pois, estão as nossas portas de entrada: as cidades do Recife e de Luanda em diálogo, através do olhar de historiadores, cientistas políticos, arquitetos, gestores públicos, escritores e artistas.
(Artur A. de Ataíde)
Palavra(s)-chave:
literatura literatura africana Luanda José Eduardo Agualusa CCBA
-
28.10.2009
Alterar tamanho da letra
Amanhã, dia 29 de outubro, às 17h, Cristhiano Aguiar (escritor, crítico literário e editor da Eita!, do site Porto das Letras e da Crispim) ministra novamente o curso que ofereceu na última Bienal do Livro, o Hoje — ficção contemporânea em Pernambuco. A aula, com duração de 2h, vai acontecer dessa vez no espaço Porto das Letras, mantido pela Fundação de Cultura da Cidade do Recife na sede da Gerência Operacional de Literatura e Editoração (ou Gole), localizada na Av. Rio Branco, nº 76A, no Bairro do Recife. Quem não pôde comparecer na ocasião da Bienal — como foi o meu caso —, tem agora essa nova chance. Como disse Cristhiano,
"o curso procura responder a uma simples questão: o que a ficção contemporânea feita em nosso estado tem a dizer? Através da leitura crítica do conceito de 'literatura pernambucana' e 'pernambucanidade', será realizada uma articulação entre a produção ficcional dos escritores do estado com impasses da sociedade contemporânea. As obras abordadas serão: Rasif, de Marcelino Freire, Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito, Sombra Severa, de Raimundo Carrero e Confissões de Lúcio, de Fernando Monteiro".
As inscrições, novamente, são gratuitas, mas as vagas são limitadas (30). Para mais informações, é só ligar para o 3232-2898.
A discussão será boa: nos vemos por lá.
(Artur A. de Ataíde)
Palavra(s)-chave:
crispim Galiléia Ronaldo Correia de Brito ficção contemporânea curso Raimundo Carrero Marcelino Freire Fernando Monteiro
-
05.10.2009
Alterar tamanho da letra
O início da tarde de sexta, na Bienal, no espaço Palco das Idéias, com um pouco de imaginação, poderia ser guardado na memória dos então presentes como um tipo de experiência que é mais comum no teatro, onde nos é dado fazer parte, a nós mesmos, de uma metáfora: não uma metáfora que se lê numa página, mas que se forma à medida que atores se põem em ato, investindo todo o ambiente em volta, por meio de um pacto implícito, da possibilidade de significar algo além do que ele ordinariamente é. Palco, platéia e teatro viram aí peça integrante de um jogo simbólico mais vivo, em que cada coisa pode se revestir de um novo sentido. É o sinal: o drama está em curso. Vai aqui então o pedido de licença para um pequeno delírio (delírio sim, porque o que houve foi uma palestra), delírio que, vale dizer, não é mero exercício de beletrismo ou de retórica romântica: a intenção da brincadeira, algo séria, é apenas resumir, talvez mais facilmente, a lição complexa da tarde. Vão aí os nossos elementos "cênicos":
1. Numa arena circular, formada por duas arquibancadas curvas (o Palco das Idéias é estruturado como o Espaço Universitário, bem conhecido dos que nos acompanharam na Bienal de 2007), reúne-se um pequeno número de pessoas: um ou outro escritor, gente ligada ao estudo de literatura, ora por profissão, ora por curiosidade, e gente que entrou ali por acaso, talvez para descansar as pernas, gente já suficientemente absorvida por outras ocupações variadas, que podem ir das leis em tramitação no senado às cebolas sem viço da feira de ontem; da última notícia de assalto nos sinais da Av. Agamenon à greve rápida dos correios e à greve longa dos bancos; ou da frustração de não saber ler tão bem ao preço alto dos livros e das fraldas descartáveis.
2. Um barulho inclemente, que impacienta, perturbador, de vozes, músicas cruzadas, sinais de apito, alto-falantes e estampidos atropela sem trégua o ambiente, vindo de todas as direções pelas portas e janelas, que estão abertas.
3. A partir de um ponto ordinário qualquer, nem ao centro nem na linha limítrofe do círculo, de um ponto sem qualquer relevância para o conjunto das relações métricas eternas e inabaláveis de Euclides, fala aos circunstantes um crítico literário, que, embora franzindo o cenho a cada pausa que o ruído lhe impõe, consegue evitar a cada vez a quebra dos elos claros que lhe concatenam o discurso claro.
4. O discurso — o "texto" da peça —, enquanto se dá, tenta se manter criticamente atento, segundo nos explica ele mesmo, a manobras suas em torno a três instâncias que lhe serviriam de base: primeiro, a memória, que, conscientemente, traz à tona toda uma série de argumentos e idéias da teoria da literatura sobre os livros e a cultura, e que, inconscientemente, suscita associações que o puro prazer se encarregou de ir sedimentando de leitura em leitura, de vivência em vivência; segundo, a imaginação, que lhe permite o movimento num mundo de meras hipóteses, num mundo de meras projeções, tecidas a partir do já conhecido, acerca daquilo que não é, mas que poderia ser (um verso, uma obra, uma frase, uma sociedade, os seus sujeitos etc.); e, terceiro, o próprio julgamento a que pretende chegar sobre uma determinada obra, julgamento que, depois do desmonte e remonte da máquina de sentidos que é essa mesma obra, irá se fazer sob a maior atenção possível à interação inaudita que possa haver entre essas tantas variáveis heterogêneas (livros, ruídos, cebolas etc.).
5. O evento é também, ele mesmo, o lançamento de uma obra, um livro que precisa ser vendido: o discurso precisa ser não apenas claro, mas, muito seguro da fé que professa, precisa ser também aliciante, persuasivo, frente ao mais amplo espectro possível de leitores. Vender, então, não é apenas engordar um cofre, mas propagar, por meio de mecanismos que são do mercado, uma mensagem cujo valor, em última análise, não é quantificável: é assim que autores e obras parecem se emancipar da condição de apenas objetos para a de também sujeitos da indústria cultural. A proporção ideal entre vender e comunicar, entre ensinar e se manter, ou mesmo enriquecer, fica a cargo, claro, do que busque cada um dos vários empreendedores nesse cabo de guerra (quase) público, parecendo sempre pouco oportuna, aliás, a anulação absoluta de um dos termos. Ser governada a sociedade pela indústria cultural talvez não precise implicar que ela não mais seja, em boa medida — numa medida a ser estipulada pelos que se disponham a de fato lutar por ela —, governada também pela cultura.
Cinco lados, parece, já nos dão um poliedro.
O que ficou claro diante do espetáculo complexo: os fragmentos dispersos da cultura literária, os fragmentos dos vários saberes erigidos em torno da linguagem, os fragmentos de uma sabedoria prática e nem sempre formal sobre si mesmo, sobre os outros em volta e sobre o tempo presente, os fragmentos ruidosos do mundo que nos assalta a cada minuto etc. etc., só podem se harmonizar como um saber único, embora sempre heterogêneo e impuro, na figura orgânica de que o próprio Fábio Lucas (ou Hildeberto Barbosa, no debate de algumas horas mais tarde) é um exemplo: o crítico literário. Não se trata de um personalismo, na medida em que essa palavra, nos lembrando uma espécie populista de autoritarismo, em que opiniões se tornam dogmas irreversíveis de um poder central aprioristicamente forjado, implicaria o ostracismo do diálogo; mas se trata, sim, de um perspectivismo, na medida em que só uma individualidade integral imersa no mundo misturado da cultura pode se fazer um instrumento suficientemente sensível do saber literário (sempre mais que "literário"), passível de arbitrar criativa e fecundamente em meio a tantas instâncias em choque. Sem que o emaranhado de discursos, teorias e visões do presente venha a se transfundir, tantas e tão variadas vezes quanto possível, num "gosto" individual pensante (ou num "gostar" individual pensante), iremos permanecer perdidos em meio a meros fragmentos.
(Artur A. de Ataíde)
p. s.: O poliedro da crítica é o título do livro do Prof. Fábio Lucas, editado pela Calibán e lançado na ocasião.
Palavra(s)-chave:
crítica Bienal do Livro de Pernambuco mercado Fábio Lucas poliedro Hildeberto Barbosa
-
05.10.2009
Alterar tamanho da letra
Segue abaixo o resumo de dois dos cursos oferecidos pela revista na Bienal. Os outros dois estão a caminho, e serão postados aqui mesmo logo mais.
Abraços,
Artur A. de Ataíde
.......................................................................
Hoje: ficção contemporânea em Pernambuco, com Cristhiano Aguiar
(sexta-feira 09/10, das 10h às 12h, no Auditório Carlos Pena Filho)
Nos últimos anos, temos observado uma retomada da crítica humanista no âmbito dos estudos literários. Intelectuais, escritores e críticos tão diferentes entre si quanto Terry Eagleton, Richard Rorty, Harold Bloom, Mario Vargas Llosa e Tzvetan Todorov, entre outros, têm dedicado parte de sua produção intelectual a fim de resgatar uma pertinência social possível à ficção e poesia neste início de século XXI. A partir deste contexto, o curso Hoje: ficção contemporânea em Pernambuco, procura responder à seguinte pergunta: O que a ficção contemporânea feita em nosso estado tem a dizer? Se todos os pensadores citados acima acreditam que a literatura é pertinente, porque carrega uma riqueza de conhecimento que só pode ser aprendida com ela, nosso foco de estudo será realizar uma introdução às obras de alguns escritores pernambucanos a partir das questões humanas que elas levantam. Após uma breve análise da ficção contemporânea no Brasil, de modo geral, e uma análise crítica do conceito de "literatura pernambucana" e "pernambucanidade", o curso tratará de quatro obras: Rasif, de Marcelino Freire; Sombra Severa, de Raimundo Carrero; O grau graumann, de Fernando Monteiro; Galiléia, de Ronaldo Correia de Brito. Indagações sobre a violência, a memória, as novas identidades masculinas e femininas, o sertão, o mal e o papel do escritor na cultura brasileira: este parece ser o saldo de uma das mais vigorosas produções ficcionais do Brasil, hoje.
.......................................................................
O valor literário dos primeiros contos de Machado de Assis, com Eduardo Melo França
(sábado 10/10, das 10h às 12h, no Auditório Carlos Pena Filho)
Ainda hoje a crítica insiste em dividir a obra de Machado de Assis em duas fases — sendo a primeira romântica e a segunda, realista. Para a maioria dos estudiosos, os contos e romances que compõem o primeiro momento dessa produção, que vai até a década de 1880 e termina com a publicação dos Papéis Avulsos e das Memórias Póstumas de Brás Cubas, constituem uma espécie de corpo estranho que não estabelece qualquer relação ou semelhança com os seus trabalhos maduros, e por isso não merecem ser estudados. Esses primeiros contos não apenas são considerados tipicamente românticos, como também psicologicamente rasos, moralizadores e literariamente sem importância. Ao contrário do que normalmente é dito pela crítica, mostraremos, no nosso curso, que já nos contos publicados antes de 1880 é possível localizar a maioria dos temas que a crítica considera como sendo os mais importantes ou recorrentes, que caracterizam e definem a maturidade da dita “segunda fase” de Machado de Assis. Ou seja, demonstraremos que a sua obra contista, ao contrário do que se diz, não sofreu uma completa ruptura ou uma espécie de renascimento na década de oitenta com os Papéis Avulsos, mas, sim, um amadurecimento em relação aos problemas abordados e ao modo como são tratados. Com isso, poderemos afirmar que, desde o início de sua carreira de contista, Machado de Assis já abordava as mesmas questões que posteriormente a crítica apontaria como fundamentais em sua obra madura.
.......................................................................
Do passado sem futuro ao contemporâneo: conhecendo a poesia brasileira atual, com Fábio Andrade
(domingo 11/10, das 10h às 12h, no Auditório Carlos Pena Filho)
A poesia brasileira vive atualmente sob o signo da diversidade. O leitor comum e mesmo o leitor especializado tem dificuldades para visualizar os autores interessantes, importantes e atuantes. Mais do que isso: sentem-se incapazes de compreender mais amplamente a produção desses autores vivos e, consequentemente, situá-los dentro de um contexto maior e mais significativo. Nosso objetivo é estimular o contato com essa poesia do presente, sugerindo inclusive as relações entre ela e os autores canônicos, sejam de continuidade ou de ruptura. Para tal, partimos das propostas da poesia concreta brasileira, procurando demonstrar que a partir dessa vanguarda a criação poética pulverizou-se numa série de caminhos particulares que minam constantemente o olhar que esquadrinha e reduz. Ao mesmo tempo, a necessidade de apreender um fenômeno em pleno desenvolvimento exige um olhar orientador . Trabalhamos então com a noção de tendência poética, como conceito capaz de promover o conhecimento inicial e operativo dessa diversidade.
.......................................................................
O som da poesia, com Artur A. de Ataíde
(segunda-feira 12/10, das 10h às 12h, no Auditório Carlos Pena Filho)
Quando vemos um quadro, nele reconhecemos muito do que vemos todos os dias a cada momento: objetos, lugares, figuras humanas, gestos etc. O impacto de uma pintura sobre nós, no entanto, também deve muito a alguns detalhes mais sutis, como o jogo das cores, da luz e da sombra, as texturas, as linhas e a composição. Assim como o pintor enriquece o que já vimos por meio de técnicas que aprazem aos olhos, o poeta enriquece o que nos é dado dizer por meio de técnicas que aprazem aos ouvidos: as palavras certas na ordem certa suscitam ritmos, cadências, e a combinação de vogais e consoantes podem nos impor andamentos diferenciados, além de nos legar harmonias as mais imprevistas, segundo nos demonstram exemplos incontáveis da tradição. O nosso curso busca aproximar de todo esse arsenal de técnicas todos os interessados em entender um pouco mais a poesia (leitores, escritores, estudantes, professores ou apenas curiosos), mostrando que "verso", "métrica", "prosódia" ou "ritmo" não são coisas abstratas, e que sua raiz está num conhecimento prático ao alcance de todos, e ao qual recorremos diariamente ao falar: a articulação natural dos sons da língua. Com um pouco de atenção, algumas reflexões, algumas dicas e mesmo alguns exercícios — além de algumas boas leituras, escolhidas dentre poemas de ontem e hoje —, a idéia é ensaiarmos juntos os primeiros passos para usufruir desse prazer tão antigo.
Palavra(s)-chave:
crispim seminário crítica poesia contemporânea Mostra Resíduos Bienal do Livro de Pernambuco poesia ficção ficção contemporânea curso
-
02.10.2009
Alterar tamanho da letra
Hoje tem início a Bienal, e com muita coisa a se ver, de palestras e homenagens a conversas e lançamentos. Há, por exemplo, o crítico Fábio Lucas, que hoje palestra e lança o seu "O poliedro da crítica" (no espaço Palco das Idéias, às 14h), há Lourival Holanda e Luiz Augusto Fischer falando sobre a "Literatura fora do eixo" (no Auditório Carlos Pena Filho, às 16h30), há o lançamento da revista Callibán, com homenagem a César Leal (no Café Cultural, às 18h), há a conversa de Hidelberto Barbosa (PB) e Everardo Norões com Fábio Andrade sobre "Poesia e crítica" (no Café Cultural, às 20h30). Para saber mais sobre a programação de hoje e dos próximos 10 dias, www.bienalpernambuco.com.
Desta vez, nós da Crispim teremos uma participação menor no evento: na edição passada ficamos à frente de boa parte da programação do Espaço Universitário, mas as nossa atividades paralelas simplesmente não o permitiram este ano. Além de participar em algumas mesas redondas, a exemplo da de Fábio Andrade hoje com os dois poetas e críticos, ministraremos quatro minicursos, nos quatro últimos dias do evento, cada um com duração de 2 horas, sempre das 10h às 12h, no Auditório Carlos Pena Filho.
Sexta-feira (09/10)
Curso "Hoje: ficção contemporânea em Pernambuco", com Cristhiano Aguiar
Sábado (10/10)
Curso "O valor literário dos primeiros contos de Machado de Assis", com Eduardo França
Domingo (11/10)
Curso "Poesia – do passado sem futuro ao contemporâneo: conhecendo a poesia brasileira", com Fábio Andrade
Segunda (12/10)
Curso "O som da poesia", com Artur A. de Ataíde
A novidade é a participação de Eduardo França: além de colega de estudos nosso, Eduardo foi nosso convidado, junto a Anco Márcio Tenório Vieira, no Crispim Debate do mês de abril, sobre Machado de Assis. Quem esteve presente na ocasião pôde constatar não apenas o conhecimento dos dois acerca da obra de Machado e da fortuna crítica que a acompanha, mas também a facilidade de ambos para tornar evidente sua pertinência frente ao que vivemos hoje, em suas mais variadas instâncias: nossas relações com o outro, nossas tentativas de compreensão de nossa própria psicologia, as necessidades que nos impelem à arte, a ausência de fórmulas que nos garantam a excelência artística, a relatividade das verdades culturais e aparentemente universais que nos movem, entre muitas outras. Esperamos que essa seja apenas a primeira de uma série de colaborações.
Quanto aos cursos, em breve estarão disponíveis no blog as ementas de cada um deles. No mais, encontramo-nos por lá.
Abraços,
Artur A. de Ataíde
Palavra(s)-chave:
crispim crítica poesia contemporânea Bienal do Livro de Pernambuco poesia literatura ficção contemporânea Everardo Norões curso
-
01.10.2009
Alterar tamanho da letra
Vai aqui mais um texto anteriormente publicado, mas ainda indisponível (na íntegra) em formato eletrônico. Trata-se de uma resenha feita por mim e publicada na edição de número 96 (dezembro de 2008) da revista Continente (veja aqui). O assunto é Galiléia, romance de Ronaldo Correia de Brito contemplado recentemente com o Prêmio São Paulo de Literatura.
Conrado Falbo, que, ao lado de Peron Rios, foi nosso convidado no último Crispim Debate, sobre canção e poesia, e eu teremos a oportunidade de falar novamente sobre o romance numa mesa redonda com o próprio autor, a acontecer, como parte da programação da VII Bienal do Livro de Pernambuco, no dia 9 de outubro, às 19h30, no Auditório Carlos Pena Filho (confira a programação completa: www.bienalpernambuco.com).
Quanto à resenha, ela integra agora a seção de artigos do site do Café Colombo. Segue o link: http://www.cafecolombo.com.br/2009/09/30/de-volta-a-galileia-por-artur-a-de-ataide/
Em breve, mais notícias sobre a Bienal.
Até lá,
Artur A. de Ataíde
Palavra(s)-chave:
crítica Bienal do Livro de Pernambuco Galiléia Revista Continente Ronaldo Correia de Brito Suplemento Pernambuco resenha
-
29.09.2009
Alterar tamanho da letra
Recebemos há pouco a notícia de que a Profª. Gilda Lins, diretora da Editora Universitária da UFPE, e docente da instituição desde 1974, acaba de nos deixar precocemente, aos 63 anos de idade, por falência múltipla dos órgãos, ocorrida na madrugada de hoje. O reitor Amaro Lins, segundo a página de notícias da UFPE, decretou luto de três dias. Agora há pouco terá tido início, no Auditório João Alfredo, no prédio da Reitoria, uma missa de corpo presente, e o sepultamento está previsto para as 15h, no Cemitério Parque das Flores.
Além da direção da Editora, que exercia atualmente, estiveram já entre as atribuições da Profª. Gilda a direção do Centro de Artes e Comunicação, a coordenação do Programa de Pós-Graduação em Letras e a criação, junto à Profª. Adair Palácio, do Núcleo de Estudos Indigenistas, no qual também atuou. Era formada em Direito e Letras pela UFPE, mestre em Língua Portuguesa pela PUC de São Paulo e doutora em Letras Clássicas pela USP.
Foi por iniciativa da Profª. Gilda Lins que nos foi oferecida pela Editora, em 2006, em meio a vários projetos em comemoração aos 50 anos da instituição, a impressão do primeiro número da nossa revista em formato de livro: nosso número 1. Permaneceremos, sempre, gratos também por isso.
(Artur A. de Ataíde)
Palavra(s)-chave:
notícias
-
27.09.2009
Alterar tamanho da letra
*texto publicado em novembro de 2006 na revista Continente Documento, dedicada aos 50 anos da publicação do Grande Sertão: Veredas
II. Canção à terra
Há ainda outro tema que nos parece central. Há um momento no romance — talvez o mais alto — em que todo o emaranhado confuso e contraditório de tantas experiências narradas se concentra numa única palavra. É quando, ao que parece, Riobaldo abandona, pela primeira vez, o desejo de compreender, de vigilantemente demarcar "os todos pastos", e, com a introdução inesperada de uma só palavra em seu discurso, sinaliza para um momento raro de iluminação. É quando, reunida sob seus olhos toda a soma de sua experiência, terrena e humana, chama-a pelo nome: "E conheci: ofício de destino meu, real, era o de não ter medo. Ter medo nenhum. Não tive! Não tivesse e tudo se desmanchava delicado para distante de mim, pelo meu vencer: ilha em águas claras... Conheci. Enchi minha história. Até que, nisso, alguém se riu de mim, como que escutei. O que era um riso escondido, tão exato em mim, como o meu mesmo, atabafado. Donde desconfiei. Não pensei no que não queria pensar: e certifiquei que isso era idéia falsa próxima; e, então, eu ia denunciar nome, dar a cita: ... Satanão! Sujo!... e dele disse somentes — S... — Sertão... Sertão...".
Em vez do Satanás, o Sertão. Nem Deus, nem Demo, nem qualquer outra estrutura de sentido inequívoca, segundo a qual se nos garanta alguma redenção: em seu lugar, o Sertão, com seu emaranhado de veredas que se desencontram. A solução algo intuitiva de Riobaldo para suas próprias inquietações não parece ter sido outra que não a soma, nesse momento, de todas elas: a assunção de sua condição puramente terrena. Essa sabedoria última alcançada, ao que parece, seria a mesma, por exemplo, que celebram as personagens de "Pirlimpsiquice", conto de Primeiras Estórias, ao representar no palco um drama sem roteiro e sem fim pré-determinado. Nem Deus, nem Demo: o que há é o "homem humano" e a desordem da travessia — até não-se-sabe-quando, como adverte ao leitor o símbolo que fecha a obra (∞). O Grande Sertão, assim, nos vem comunicar, mesmo que não definível de modo claro, uma realidade cuja verdade bastante está em simplesmente a estar vivendo, com todas as dúvidas. Riobaldo, por isso, comunica uma experiência que ele mesmo não pôde entender — assim como não a poderia ter entendido nem Guimarães Rosa nem ninguém.
Como talvez pudesse dizer Rilke, Rosa compôs uma verdadeira canção a terra. A clareza absoluta, a inteligibilidade plena do mundo é uma tarefa para deuses; as encruzilhadas humanas, seus impasses mundanos, não são lugares propícios para a adoração de Apolo — diz em um de seus Sonetos a Orfeu. O claro-escuro é a forma de conhecimento que nos resta: essa é a verdade frágil também de Riobaldo. Com isso talvez fique claro que não, não se abandonam as coisas para se escrever literatura: o Grande Sertão parece mais integrado a elas que nós mesmos. É mais um livro entre aqueles que, existindo, justificam os livros.
(Artur A. de Ataíde)
Palavra(s)-chave:
crítica Revista Continente literatura Guimarães Rosa Riobaldo
-
23.09.2009
Alterar tamanho da letra
*texto publicado em novembro de 2006 na revista Continente Documento, dedicada aos 50 anos da publicação do Grande Sertão: Veredas
Em se tratando de literatura, algumas perguntas parecem já ter sido suficientemente perguntadas e reperguntadas até a esterilidade. Parece ser o caso, hoje, de todas aquelas que dizem respeito à tão controvertida função da literatura na sociedade. Certo niilismo atual — pós-moderno? — parece ter desabilitado por completo perguntas desse tipo. Adaptemos a questão a um caso específico: o que leva alguém a largar os afazeres do dia, ainda que por algumas poucas horas, e investir tempo e afeto na preparação de um calhamaço de mais de 500 páginas, que, se já não bastasse, conta na voz de um jagunço uma história confusa e sem final? Talvez tenha sido, no caso de Rosa, a ambição de coroar suas nobres carreiras de médico e diplomata com o ingresso no prestigiado clube dos ilustríssimos de nossa cultura, a ambição de integrar essa lista de nomes que, perpetuada pelos manuais de literatura, paira muito acima do chão comum das reais misérias brasileiras. É uma resposta possível, sem dúvida, mas a obra talvez nos inspire outras.
A história de Riobaldo é contada por ele mesmo, de forma desordenada, permeada de digressões, considerações sobre as coisas do mundo (amor, religião, política, morte, etc.), pontos de incompreensão, confissões, "estórias" de terceiros, etc. A sua posição (e a do leitor) é a de alguém que vasculha toda uma vida em busca de um sentido subjacente, de um sentido último para esse novelo de experiências ainda em aberto, tão íntimo de todo humano vivente. A narrativa de Riobaldo parece querer se igualar, pelo nível de desordem e de abertura indefinida para o futuro, à concretude de uma vida ainda em progresso, à experiência real de se ver a meio caminho de um destino desconhecido. Apesar de tal resumo, claro, a obra não é um mero aglomerado de acontecimentos reunidos ao acaso.
I. "Círculo-de-giz-de-prender-peru"
Em um dos vários prefácios ("Aletria e hermenêutica") que o próprio Guimarães Rosa escreveu para Tutaméia, seu último livro de contos publicado em vida, a relação entre indivíduo e linguagem é comparada ao que chama de "círculo-de-giz-de-prender-peru": um simples círculo riscado a giz no chão em torno do animal, que não se atreve a ultrapassá-lo. Assim como acontece ao peru, estaríamos sempre na iminência da liberdade, mas quase sempre recuamos diante de limites frágeis, passados de geração a geração: os condicionamentos da cultura, o repertório de pequenas (e grandes) verdades que regem o nosso cotidiano e que terminam por nos constituir, ora mais, ora menos advertidamente. São os hábitos históricos que trazemos às costas. Principalmente em duas das várias experiências que narra, Riobaldo parece ter pisado as fronteiras desse círculo; uma delas foi o período que viveu como chefe de bando, com o codinome de Urutú (sic) Branco.
Entre os vários códigos que Riobaldo herda do sertão, um parece marcá-lo profundamente: o maniqueísmo Deus–Demo. É a chave de que dispõe para interpretar os atos dos que o rodeiam e os dele próprio. Nas mãos de um espírito perscrutador como o seu, no entanto, essa é uma teoria do humano que não podia deixar de mostrar sua insuficiência. (Afinal, "este mundo é muito misturado...").
A batalha do Tamanduá-Tão, em que permanece impassível em meio ao tiroteio, é o momento preciso em que outra forma de verdade é experienciada por Riobaldo-Urutú-Branco, para além do dualismo Deus-Diabo: o heroísmo de ser si mesmo, à revelia dos deuses. Conta Riobaldo: "Mais coragem que todos. Alguém foi que me ensinou aquilo, nessa minha hora? Me vissem! [...] Se não vivei Deus, ah, também com o demo não me peguei — refiro —; mas um nome só eu falava, fortemente falado baixo, e que pensado com mais força ainda. E que era: — Urutú Branco!... Urutú Branco!... Urutú Branco!... Cujo era eu mesmo. Eu sabia, eu queria". Riobaldo aí vislumbra, e vive, uma forma de ética ainda incomum no seu mundo, a ética de um mundo sem deuses.
A outra experiência-limite é o amor a seu companheiro de armas, Diadorim. O mesmo código do sertão, desta vez no que diz respeito à sexualidade, é o que o corpo de Riobaldo, tão mais insistentemente quanto mais lhe era negado, convocava a transcender quando em presença de Diadorim. São as passagens mais líricas do romance: é quando a linguagem, contaminada pelo desejo, estrangeirizada, parece multiplicar as sensações, os aromas, os sons e as cores do que o cerca. Fica evidente, em sua fala, o quanto esse amor obteve de Riobaldo atenção que pedia, mas, nunca, a concessão que a desdobrasse em ato. Lembrar-se de Diadorim, por isso, ao fim de tudo, torna-se para ele uma espécie de canto (amargo) da sereia: a voz inclara que o convidava a ultrapassar o círculo restrito imposto pela herança cultural. O final desse episódio vem só mostrar o quanto Riobaldo, aí, esteve próximo de cruzar a linha de giz: de experienciar, como numa espécie terrena de Revelação, o quanto pode haver de estranhamente verdadeiro no mundo, para além do conjunto das aparentes certezas que aqui e ali nos seqüestram. Como num claro-escuro dinâmico, sempre confuso, essa parece ser uma batalha em que, como Riobaldo, nunca podemos saber a tempo se estamos ganhando ou perdendo. O engano estará sempre à nossa espreita.
(Artur A. de Ataíde)
Palavra(s)-chave:
crítica Revista Continente literatura Guimarães Rosa Riobaldo
| 1| 2| 3| 4| 5| 6| 7| 8| Próxima